simon fernandes
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A prática artística de Simon Fernandes (Fortaleza, 1982) explora diferentes mídias, como a arte sonora, a escultura e a linguagem computacional, articulando disjunções e conexões entre espaço, materialidade e consumo no contexto do capitalismo contemporâneo.

Suas obras integram as coleções do Ilmin Museum (Seul, Coreia do Sul) e da Bienal de Cerveira (Cerveira, Portugal). Exposições recentes incluem a coletiva Dear Amazon (Seul, Coreia do Sul, 2019) e as individuais Para Sempre Parquelândia (Okinawa, Japão, 2019) Enquanto Dormimos, a Cidade nos Arranha (São Paulo, Brasil, 2020), além da participação na The Wrong Biennale (Web, 2020). Vive e trabalha entre Fortaleza e São Paulo.

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The artistic practice of Simon Fernandes (Fortaleza, 1982) explores different media, such as sound art, sculpture and computational language, articulating disjunctions and connections between space, materiality and consumption under contemporary capitalism.

Fernandes' works are part of the collections of the Ilmin Museum (Seoul, South Korea) and the Cerveira Biennial (Cerveira, Portugal). Some of his recent exhibitions include the group show Dear Amazon (Seoul, South Korea, 2019), the solo shows Para Sempre Parquelândia (Okinawa, Japan, 2019) and Enquanto Dormimos, a Cidade nos Arranha (São Paulo, Brazil, 2020), and a participation in The Wrong Biennale (Web, 2020). Simon Fernandes lives and works between Fortaleza and São Paulo.

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email: sssimonfffernandes@gmail.com

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DE QUALQUER FORMA, QUE HORAS SÃO AGORA ?
Julie Dumont

Tinha uns dez anos quando vi O Beijo da Mulher Aranha, filme icônico de Hector Babenco, pela primeira vez na televisão. O filme conta a história de Luis Molina, um gay exuberante interpretado por William Hurt, e do seu companheiro de cela, Valentin Arregui, interpretado por Raúl Juliá. Molina está preso por causa do seu comportamento sexual; Arregui, por conta das suas atividades políticas. Os dois homens estão em uma prisão sinistra de São Paulo durante a ditadura militar. Eles escapam do desespero e da violência cotidiana através de trechos de um filme que Molina nos conta, dia após dia e noite após noite, sobre a trágica história de amor entre uma glamurosa cantora francesa e um soldado nazista, por quem ela morre ao final.

Quando criança, só me lembrava de dois momentos do filme, ambos próximos ao fim: em um deles a aparição da mulher aranha, no outro, os protagonistas encontram finalmente a liberdade em uma praia do além. Não me lembrava que o filme acontecia em São Paulo e não tinha a menor ideia de que 30 anos mais tarde, ia assistir a este mesmo filme sozinha, no meu sofá, prisioneira voluntária do meu próprio apartamento na mesma cidade e que ficaria encantada ao ver as suas ruas animadas, cheias de vida na tela.

Isto me deixou com a sensação estranha da história se repetindo e que a experiência que estava tendo do meu sofá poderia também ser um filme, uma vertiginosa “mise-en-abîme”. Tento me tranquilizar, pensando que a vida evolui como a espiral de uma concha, passando pelo o mesmo ponto, mas em um nível mais alto. Nós não estamos no mesmo lugar, é somente uma fase parecida e, mesmo se a maioria está confinada em casa, nós não estamos no meio de uma ditadura militar. Ou estamos?

A realidade pode, aliás, ser pior do que a ficção e ao olhar o atual circo político brasileiro de mais perto, poderíamos pensar em um filme de Romero, no qual mortos-vivos assaltam cidades, onde não temos como fugir, e defensores raivosos do atual presidente aka o chefe dos zumbis atiram em seus opositores políticos quando protestam pelas suas janelas. Enquanto o resto do mundo aplaude e canta para encorajar doutores o outros covid-19 heróis, outros, no Brasil, estão baleados e carreatas pedem o fim do confinamento e o retorno dos trabalhadores aos seus postos, bloqueando entradas de hospitais. No fim das contas, o líder deles vai cair, pois não é sério o suficiente para satisfazer as exigências dos marionetistas; ele foi o suficiente no início, agora não mais. Vamos terminar com os militares que estão de fato manipulando as cordas.

Nestas circunstâncias confusas se pode facilmente perder o contato com a realidade: será que é um pesadelo, um filme ou será que é real mesmo? Melhor tentar não cair no desespero, não imaginar a volta oficial de um regime que nos impediria de beijar quem bem quiser na boca, seja um namorado ou uma namorada quando eventualmente nos reunirmos, arriscando a liberdade ou vida para um drinque no Cabaret da Cecília, curtindo uma noite queer no decor vintage desse pequeno aconchego no centro de São Paulo. Em que ano estamos? Será que os alemães estão prestes a deportar e matar milhões de pessoas ou será que é um inimigo invisível que mata tantos? Será que estamos no meio dos anos 1970 em uma ditadura ou estamos no século 21, prontos para afrontar um regime militar legalmente instaurado?

O tempo está borrado, tudo está misturado, dinossauros ainda existem, assim como fascistas e zumbis. Eles são machos, brancos, velhos e raivosos porque sabem que o reino deles está acabando, portanto ficam mais violentos e loucos. A situação em que vivemos parece uma rachadura no tempo linear: uma fissura social, político-sanitária, é exatamente onde estamos agora. Talvez esta fenda é onde a luz finalmente entrará. Talvez esta crise poderá trazer uma mudança no paradigma atual e nos ajudar a criar um mundo um pouco mais humano. É quase engraçado pensar que este deslocamento potencial seria induzido por algo tão pequeno que nem podemos ver a olho nu.

Este é o assunto exato da conversa que tive com o artista Simon Fernandes. Queria visitar o ateliê do Simon há um tempo, mas agendas cheias, viagens e a quarentena decidiram o contrário. O dia da nossa ligação parecia somente um outro dia. Acabou sendo diferente. A tranquilidade e o leve tédio desta quarta-feira ordinária se iluminaram quando começou a nossa conversa e as sincronicidades surgiram. Achava que o trabalho de Simon tratava da tecnologia, um assunto um pouco afastado da minha pesquisa sobre o maravilhamento, a alteridade e o sublime; mesmo assim estava interessada. Contudo, falamos das mesmas coisas, só que com outras palavras ou imagens.

De fato, se as obras do Simon podem parecer frias, a sua proposta - através das suas esculturas híbridas, instalações ou pinturas - é uma volta ao afeto e à condição humana, usando a tecnologia para ressaltar estes assuntos. No trabalho dele, uma outra temporalidade surge, na qual metal e luz fria coexistem com elementos baratos como sacolas de plástico transparente em uma mistura despretensiosa de alta e baixa tecnologia e cultura. A pesquisa de Fernandes também aborda a tensão e o movimento permanente entre a matéria e elementos digitais, que não estão tão distantes como podemos inicialmente pensar. Para ele, a imaterialidade acaba se encarnando em nós na forma de sensações, percepções, e voltam sempre para a matéria e o humano.

À medida que a nossa conversa fluía, o encantamento, a genialidade e a magia da vida viraram o foco do nosso papo. Acordamos que, ao final das contas, a arte tem esta capacidade única de deixar visível o laço que existe entre nós e o que nos cerca também, desvelando o que normalmente ficaria escondido por um simples deslocamento, reanimando a vida, no senso de trazer a sua alma, a sua anima, de volta.

Este exercício poderia antecipar o futuro, explorando os elementos invisíveis do nosso presente. Veiculando a hipótese de Berrardi sobre o post covid-19, sugiro que o futuro poderia conter a rejeição da tecnologia como trauma vinculado à nossa experiência da quarentena. Simon tem uma outra hipótese e considera que a tecnologia poderia recobrar parte do seu charme inicial e da sua pureza, liberada dos aspectos tóxicos da nossa relação como o digital e a sua consumação. Acho animador e escolho adotar esta perspectiva.

Acabamos conversando sobre a arte contemporânea e o que realmente significa. Simon cita este outro filósofo italiano, Agamben. O que ele escreveu sobre o contemporâneo resume bem o nosso entendimento da situação atual e o papel da arte neste contexto. A nossa habilidade de olhar no retrovisor e através do para-brisas ao mesmo tempo, sem julgamento, percebendo a repetição de padrões e a emergência de novas formas em um lugar onde nada é permanentemente definido, em vez disso, em suspensão: isto é o contemporâneo. A capacidade de olhar para o presente com distância.

Como o sugere Agamben, concordamos que talvez estejamos no caminho certo, pensando a arte como A Ferramenta para redesenhar relações de poder. O artista aparece, neste contexto, como um vetor de algo maior do que ele, um tipo de mensageiro do inconsciente coletivo.

Somos compostos de átomos e átomos são compostos de energia. Somos energia, a nossa e a que está flutuando a nosso redor. Algumas pessoas conseguem catalisar e traduzir nas suas palavras ou imagens este tipo de sabedoria atemporal, como xamãs, responsáveis para trazer de volta o afeto como fundamento de nossas vidas. Talvez a arte possa criar este novo território, sem fronteira definida, um tipo especial de heterotopia, como se fosse uma ilha mágica ou um jardim a se expandir de forma infinita. Isso nos obriga a ter a capacidade de prender a nossa respiração e de observar, de ficar imóvel e quieto, olhando para o nosso passado coletivo e para nosso possível futuro a partir de um tempo presente que pode ser reinventado. Este é provavelmente o que estamos fazendo, de forma intuitiva, enquanto confinados, experimentando a própria definição do que é o contemporâneo, das sincronicidades e fendas temporais, o que significam a arte, o amor e a vida, e o que esta crise pode nos trazer? Este é também o motivo de às vezes nos sentirmos presos em um filme. E também o motivo que deixa os dinossauros furiosos e os zumbis assustados e alguém se perguntando “de qualquer forma, que horas são agora?”

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WHAT TIME IS NOW ANYWAYS?
Julie Dumont

I was a little bit more than ten years old when I saw The Kiss of the Spider Woman, from Brazilian director Hector Babenco’s iconic movie on television. The movie revolves around the story of Luis Molina, a flamboyant gay man played by William Hurt and his inmate, Valentin Arregui, played by Raúl Juliá. Molina is jailed because of his sexual behavior, Arregui because of his political activities. The two men are trapped in a gloomy prison in São Paulo, Brazil, during the dictatorship. They escape despair and daily violence through the stories Molina tells, day after day, night after night, of a movie about the tragic love story of a glamorous French singer that felt for a Nazi soldier and, long story short, died because of her feelings. As a child, I just remember of this glimpse of the spider woman somewhere near the end of the movie, then of the eerie finale, where the protagonists find freedom on a dreamy afterlife beach. I did not recall the movie was happening in São Paulo. I had no idea that 30 years later I’d watch the same movie, alone in my couch, voluntary prisoner of my own apartment in the very same city and that I would be delighted to see its streets hustling and bustling with life.

This left me with the strange feeling of history repeating and that what I was experiencing from my couch, might be as well a movie, a vertiginous “mise en abîme”. I try to soothe my spirits thinking that it’s not the case, that life evolves like the spiral of a shell, ascending and passing by the same point but a level higher, that we’re not at the same place, it’s just a similar phase and although most of us are quarantined, we’re not in the middle of a military dictatorship. Or are we?

Reality can be worse than fiction though and if I look closer at the political circus Brazil is currently showing, one could think of a Romero movie, where living dead assault cities and where there is nowhere to run. Angry supporters of the current president which appears to be the leader of the living dead, are shooting political opponents when they are caught protesting from their windows. While the rest of the world clap and sing to cheer up the doctors and other covid-19 heroes, others in Brazil are being shot at and motorcades of zombies claiming the end of the confinement and the return of workers to their jobs block the entrance of hospitals. The leader of the living dead will fall eventually, he is not serious enough to satisfy the exigences of the puppet masters, he was enough in the beginning, not anymore. We will end up with the military that are already de facto pulling the strings.

In these confusing circumstances, you could easily lose track of reality: is this a nightmare, a movie or is this real? Better try to not fall into despair, not imagining the official come back of a regime that would impeach you to French kiss whoever you want, be it your boyfriend or girlfriend when you’ll eventually get back together, where you might be risking your freedom or life having a drink at the Cabaré da Cecilia, enjoying a queer night in the 20ies scenario of this vibrant and homey tiny bar near downtown São Paulo. What year is this actually? Are the German ready to deport and kill millions of people or is it an invisible enemy that kills so many? Are we in the middle of a 70’s dictatorship or are we in the 21st century, ready to cope with a legally installed military regime?

Time is blurred, all is mixed up, dinosaurs still exist, along with fascists and zombies. They are male, white, old, and angry because they know their reign is ending, so they get more crazy and violent.

The situation we live now looks like a crack in linear time: a social, political and health interstice is exactly where we are now. Maybe this breach is where the light will eventually come in. Maybe this crisis will be able to create a shift in the current paradigm and help us create a world a bit more human. It is almost funny to think that this potential displacement would be induced by something that is so tiny it is not even visible to the naked eye.

This is the very topic of the conversation I had with the Brazilian artist Simon Fernandes. I wanted to visit Simon’s studio for a while, but busy schedules, travels and the quarantine decided otherwise. The day of our call looked like just another day. It ended up not being that much like it. The quietness and slight boredom of this otherwise ordinary Wednesday brightened up as we began talking and synchronicities appeared. I thought Simon’s work was about technology, a bit far from my research about the enchantment, the otherness and the sublime, even though I was interested. Yet it appeared we were talking about the same stuff, with other words or images.

Indeed, although Fernandes’ work might appear as cold, what he proposes through his hybrid sculptures, installations or paintings is a return to the affection and to the human condition, using technology to highlight it. In his work, another temporality appears, where metal and cold lights coexist with ordinary and cheap elements such as transparent plastic bags, in an unpretentious mix of high and low tech and culture. Fernandes artwork addresses the apparent tension and permanent movement between matter and digital elements as these might not be as distanced as we initially think. For him, the immaterial eventually incarnates in us in the form of sensations, perceptions and always comes back to matter and to the human.

As our conversation unfolds, the enchantment, our geniality as living beings and the magical aspects of life become the center of our talk. We agree that eventually art has this unique ability to make visible the thread that exists between us and what surrounds us too, unveiling what remains otherwise hidden through a simple twist of the matter, of words, re-animating life, in the sense of bringing back its soul, its anima.

This exercise might be anticipating the future, exploring invisible elements of our present. Conveying Berrardi’s hypothesis regarding the post covid-19, I suggest that the future might hold a rejection of technology as a trauma linked to our experience of quarantine. Simon has another theory and considers that technology will eventually regain some of its initial charm and purity, free of the toxic aspects of our relationship with the digital and its consumption. I find it cheering and chose to adopt this perspective.

We end up talking about the contemporary and what it really means. Simon quotes this other Italian philosopher, Agamben. What he wrote about the contemporary sums up quite well our mutual understanding of what we are currently living and what is the role of art in all this. This is all about our ability to see in the dark and see the light that coexists on its side. Our ability to watch in the rearview mirror and stare through the windshield at the same time, without judgement, noticing the repetition of patterns and the emergence of new forms in a place where nothing is permanently defined and remains somehow suspended. This is what contemporary is. The ability to look at the present with a distance.

As Agamben suggests, we agree that we might be on the right track, thinking art as The Tool to redesign power relationships. The artist appears, in this context, as the vector of something bigger than himself, a kind of messenger of the collective unconscious. We are made of atoms and atoms are made of energy. We are energy, our own and the one that is floating around. Some people can catalyze and translate in their own words or images this kind of extemporal wisdom, as some shamans responsible for bringing back the affection at the core of our lives. Eventually art might be able to create this new territory, without defined border, a special kind of heterotopy, as an enchanted island or garden that could expand endlessly. All this requires the ability to hold our breath and observe, to stay still and be quiet, staring at our collective past and possible future from a present time that can be reinvented. That is what we probably intuitively do while quarantined: experiencing the very definition of what is the contemporary, of synchronicities and cracks in time, of what art, love and life are about, of what this crisis may bring. That is also why we feel like we are stuck in a movie sometimes. It is also what makes the dinosaurs angry and the zombies scared and one asking what time is now anyways?

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